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RESUMO

 

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TRANSLINEAÇÃO EM ENUNCIADOS ESCRITOS INFANTIS

Viviane Favaro Notari.

 

RESUMO

Com base na concepção de escrita constitutivamente heterogênea, tal qual proposta por Corrêa (2001, 2004), neste trabalho, temos a hipótese de que, embora a translineação seja um processo típico e exclusivo do modo de enunciação escrito, nas translineações feitas pelas crianças, pode-se ver a emergência de suas diferentes experiências sócio-históricas com os modos de enunciação falado e escrito da linguagem e, de modo privilegiado, as experiências sócio-históricas ligadas à organização interna da sílaba fonológica e ao funcionamento convencional da sílaba ortográfica. A partir dessa hipótese, nosso objetivo foi investigar, longitudinalmente, a translineação (convencional e não convencional) presente em enunciados de crianças em aquisição da escrita, considerando as ocorrências dessa partição ao longo das (antigas) quatro primeiras séries do ensino fundamental e examinando tendências e particularidades envolvidas nessa emergência. De forma específica, buscamos (a) verificar se existem mudanças, qualitativas e quantitativas, no modo como as crianças translineiam, considerando as quatro primeiras séries do ensino fundamental; (b) investigar em que medida as translineações (convencionais e não convencionais) propostas pelas crianças estariam ligadas à organização interna da sílaba fonológica e à relação dessa organização com o funcionamento convencional da sílaba ortográfica; e (c) examinar quais outros fatores  podem estar envolvidos na emergência das translineações feitas pela criança. Para cumprir com o objetivo proposto, utilizamos como material de análise 3131 enunciados escritos que compõem o Banco de produções textuais dos grupos de pesquisa (CNPq) Estudos sobre a aquisição da escrita e Estudos sobre a linguagem. Na investigação quantitativa desse material, observamos que 776 enunciados apresentaram partições de palavra no fim da linha; nesses, encontramos 1356 ocorrências de translineação, sendo 941 (69,4%) convencionais e 415 (30,6%) não convencionais. Ao considerar esses números a partir da variável série, obtivemos os seguintes resultados: 145 (75,12%) não convencionais e 48 (24,88%) convencionais na primeira série; 113 (33,83%) não convencionais e 221 (66,17%) convencionais na segunda série; 75 (22,80%) não convencionais e 254 (77,20%) convencionais na terceira série; 82 (16,40%) não convencionais e 418 (83,60%) convencionais na quarta série. Com esses resultados, foi possível verificar um processo progressivo nos registros convencionais e um processo regressivo nos registros não convencionais de translineação. Qualitativamente, pudemos observar que as translineações: (1) estão, de fato, diretamente ligadas à organização interna da sílaba fonológica e à relação dessa organização com o funcionamento convencional da sílaba ortográfica (apresentando partições em contexto de correspondência e de não correspondência entre sílaba ortográfica e fonológica, bem como ruptura na organização dessas sílabas); (2) envolvem fatores de diferentes naturezas em sua emergência (relacionados, especialmente, à relação grafema/fonema, à segmentação e a critérios semânticos); por fim, (3) deixam ver a construção de um imaginário acerca da escrita.

Palavras-chave: Translineação. Aquisição da escrita. Heterogeneidade da escrita.

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